Svadhyaya, o estudo como caminho

Patrícia Lima

Sva em sânscrito significa auto, próprio, self. Adhyaya literalmente significa estudo, lição, leitura. Muitos comentadores de Patanjali traduzem svadhyaya como estudo de si mesmo e ainda estendem o conceito para o estudo das escrituras sagradas que levam a compreensão do eu.

Essas diferenças de traduções se dão no contexto em que a palavra aparece nos Yoga Sutras de Patanjali. Primeiramente ele cita svadhyaya como um dos três aspectos do Kriya Yoga (que é o yoga da ação que abrange também disciplina e entrega). Num segundo momento, aparece na lista dos oito passos do caminho para alcançar o samadhi (iluminação) dentro do segundo passo que é Niyama, ações importantes a serem observadas para esse fim, sem nenhuma explanação maior, apenas a sua definição.

Depois que ele cita todos os Yamas e Niyamas (primeiro e segundo passos do caminho do Yoga) e suas definições, ele dá uma ênfase maior a cada um desses componentes. Sobre svadhyaya, diz que sua prática facilita a conexão com forças mais elevadas (ista-devata). Portanto, seu conceito torna-se bastante hermético e necessita uma contemplação maior sobre a palavra em si.

No dicionário sânscrito-inglês de Monier-Williams sv?dhy?ya pode significar “recitar ou repetir ou ensaiar para si próprio; repetir ou recitar o Veda em voz baixa para si mesmo; recitação ou consulta de quaisquer textos sagrados. Desse último provavelmente vem a interpretação de alguns tradutores como estudo das escrituras sagradas. Levando em consideração que o prefixo sva significa auto, próprio, tendemos a considerar svadhyaya como o estudo de si mesmo, o que tornaria o significado redundante em relação  a proposta do yoga em si.

Podemos considerar também a possibilidade de Patanjali falar sobre  ‘estudar para si ‘, ou ‘estudar sozinho’,  para se ter uma  compreensão do objeto do estudo a partir da própria contemplação. Essa interpretação se dá devido  à  citação de svadhyaya em que Patanjali fala que a consequência dessa prática é a conexão com o Ista Devata, que é o Ísvara pessoal, e como o próprio nome diz, é pessoal a cada um.

Ista Devata literalmente significa uma deidade preferida, apreciada, ou seja, não comum a todos. Tanto quanto um objeto de adoração, devata é um símbolo que representa também apenas um meio para se alcançar o samadhi. A prática de svadhyaya nesse sentido leva o praticante a se conectar com essa faculdade de consciência pura, que é pessoal, decorrente da afinidade de cada um, por isso a visão de estudar sozinho, ou para si mesmo deve ser levada em consideração.

A palavra sangha muito utilizada nos propósitos espirituais, não necessariamente religiosos, significa confluência, encontro de pessoas num mesmo caminho e essa confluência só se fortalece através da prática individual de cada um, provavelmente como devia acontecer com os yogues da antiguidade que se encontravam nos seus círculos fechados.

Qualquer conceito que escolhermos para svadhyaya, seja estudo das escrituras sagradas, estudo de si mesmo ou estudar sozinho deve ser levado em consideração a motivação por trás desse estudo.  O que se deve manter em mente é que tudo é apenas um meio para o objetivo maior do yoga que é uma mente onde não há nenhuma confusão, identificação, quer seja boa ou não, ou seja, samadhi.

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