Tapas, a disciplina que liberta

Patrícia Lima

Tapas significa calor. Nas religiões védicas é utilizada para expressar as práticas de austeridades realizadas com o objetivo de se obter algum ganho ou bênçãos dos seus respectivos deuses adorados. Essas práticas de ascetismo muitas vezes eram motivadas por fama, poder e egoísmo. A visão ascética também é comum na história do cristianismo como método para refrear os desejos corporais, eliminar vícios, reorientação de tendências desordenadas, utilizando mortificação, penitências, retiros, orações com a intenção de livrar o praticante do pecado e favorecer o desenvolvimento da sua vida espiritual.  No yoga, Patanjali utiliza o termo dentro do Kriya Yoga (yoga da ação) e também dentro dos Niyamas como a disciplina necessária para se alcançar a perfeição do corpo e dos sentidos.

A perfeição do corpo engloba hábitos corretos em relação à nutrição, exercícios, descanso e sono adequados. Sem esses hábitos o corpo poderá adoecer e se tornar um obstáculo para a prática de yoga. Quando o corpo se torna bem amparado por essas questões, a energia física consequente permite ao corpo manter a disciplina da prática e o seu pleno funcionamento. A perfeição dos sentidos vem da purificação das impurezas dos seus órgãos correspondentes, tanto os órgãos de ação quanto os órgãos de percepção.  Aproximar o pensamento com as ações e com a fala torna a prática muito mais linear para o yogue, evitando uma mente repleta de contradições e confusões.

Para desenvolver a disciplina da fala é necessário observá-la, evitando mentira, fala inútil, rude e que provoca cisão, como Buda ensina no seu treinamento da mente. Essa disciplina gera a perfeição que Patanjali fala no seu yoga sutra. Aqui, Tapas é a ação necessária para se aproximar da verdade (Satya, um dos niyamas). Tapas também é a ação necessária para a purificação do corpo, eliminação das impurezas, estagnação de energia, rigidez articular muscular que impedem a boa postura e evita dores físicas. Sem tapas é impossível alcançar a purificação (Sáuca, um dos niyamas).

Tapas é o antídoto da preguiça física. Todo praticante de yoga já oscilou muitas vezes em iniciar a sua pratica diária. Mas, quando se opta pela prática, toda a preguiça se dissolve. É muito importante discernir sobre os diálogos na mente para tomar a decisão pela disciplina. A narrativa da mente nesse momento geralmente é irrelevante, cheia de tentativa de autogratificação pelo dia difícil ou pela noite mal dormida. O que nós praticantes sabemos é que o ganho da prática é muito maior e dissipa qualquer desconforto físico ou mental. Esse é o ponto para se apoiar e se decidir pela disciplina. Sem ela não fazemos o que devemos e o que queremos fazer para nos manter no caminho do yoga.

Falamos em ganho no sentido de nos manter nesse caminho. Patanjali cita vários obstáculos dos Yoga Sutras. Um deles é a ausência de perseverança, que se dissolve com tapas. Em termos práticos, é começar a prática mesmo sem nenhuma vontade. Outro obstáculo é a incapacidade de se manter o progresso que já foi atingido. Essa incapacidade se dá pela ausência de tapas, a disciplina.

O yoga é construído dia após dia. Podemos achar que já somos praticantes avançados, que temos o controle dos pensamentos e emoções e negligenciar a prática diária. Um grande equívoco do ego, que costuma tomar para si todos os méritos. O yoga tem um objetivo definido que é o samadhi, a iluminação, mas, por outro lado, essa meta se torna inalcançável sem a prática do desapego falado por Patanjali no aforismo 1.12 abhyasa vairagyabhyam tannirodahah😮 estado de yoga só é possível com prática constante e desapego. Portanto tapas é a disciplina que nos liberta de toda a submissão de uma mente amorfa, obscura e também de um ego que deseja se apropriar do estado de plenitude do yoga, que é apenas do Ser.

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