Nataraja

Aldous Huxley

Abram bem os olhos e olhem para o Nataraja que está no altar. Observem-no detalhadamente. Na sua mão superior direita, como vocês já viram, ele segura o tambor que chama o mundo para a vida, e na sua mão superior esquerda segura o fogo da destruição. vida e morte, ordem e desintegração, imparcialmente distribuídas. Agora, olhem para o outro par de mãos de Shiva. A mão inferior direita está erguida e com a palma voltada para fora. Qual a significação desse gesto? Ele quer dizer: “Não tenha medo, tudo está bem”. Mas como pode uma pessoa sensata não ter medo? Como fingir que o mal e o sofrimento sejam coisas certas, quando a evidência de que são erradas é tão óbvia? Nataraja tem a resposta. Agora, observem a sua mão inferior esquerda se vejam que com ela está apontando para os pés. E os pés, que estão fazendo? Olhem com cuidado e verão que com o pé direito ele pisa numa pequena e repelente figura sub-humana – o demônio, Muyalaka, que, embora sendo um anão, é dotado de um imenso poder de malignidade. Muyalaka corporifica a ignorância, representa a ganância e o egoísmo exagerado. Esmaguem-no, quebrem-lhe as costas! É exatamente isso que Nataraja está fazendo. Esmagando o monstrinho sob o seu pé direito. Mas notem que não é para o seu pé direito que ele está apon tando com o dedo e sim para o esquerdo. O pé que, no ato de dançar, ele está levantando do chão. E por que aponta para ele? Por aquê? Esse pé erguido, esse desafio dançante à força da gravidade é o símbolo da libertação, do Moksha, da liberação. Nataraja dança ao mesmo tempo em todos os mundos – no mundo da física e da química, no mundo da rotina, do demasiadamente humano e, finalmente, no mundo da Semelhança, da Inteligência, da Luminosidade…

(Trecho de A ilha de Aldous Huxley)

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