A terra fértil para a meditação

Patrícia Lima

Patanjali ensina oito passos para se alcançar o estado de yoga. Dentre eles estão prathyahara (abstração dos sentidos) e dharana (concentração). Prathyahara é a porta de entrada para a parte interna do yoga. Sem ela a mente terá muita dificuldade em se concentrar, que é o passo anterior à meditação em si. Ensinar a mente a não se envolver pelas informações trazidas pelos sentidos é o passo mais importante para se aproximar da meditação. Sabemos que é totalmente possível, todos nós em algum momento já abstraímos informações externas principalmente quando estamos num trabalho que requer muita atenção. Mas, no início, ao sentarmos para meditar é natural que a mente fique muito ligada ao que acontece fora do corpo, já que olhar para si mesmo ainda é um desafio.

A concentração surge da prática de prathyahara. O objetivo desse roteiro simples é aprendermos a nos concentrarmos na nossa própria mente (item 8) que tem como objetivo perceber como ela funciona em relação aos pensamentos e emoções gerados por ela.  O treino de prathyahara você encontra especificamente nos itens 4 e 5 precedidos pela preparação fundamental com a execução da postura, rotação de consciência e o estabelecimento da estabilidade no nível físico. Para começar você não necessitar fazer todos os passos. É importante estabelecer um tempo diário para que a prática comece a ganhar espaço na sua vida.
Você pode começar com dez minutos e ir aumentando esse tempo na medida em que acrescenta mais um item. Treine bastante os itens 4 e 5 antes de acrescentar o item 8.  Esse é um primeiro passo para você estabelecer uma rotina de prática. Talvez num primeiro momento você não consiga chegar ao item 8 propriamente dito. Mas a mente estará atuando desde o momento que você se senta, se ajusta e faz a rotação de consciência. O importante é ir acostumando o corpo na postura, criar uma rotina física para o corpo, ainda que você tenha apenas 10 minutos por dia.

A mente é totalmente treinável e você irá perceber isso na prática. Fique atento às emoções (nem sempre agradáveis) que surgem evitando criar expectativa ou gerar apego ou aversão a elas.

1. Postura Meditativa

Escolher uma posição sentada em que a pelve fique mais alta do que os joelhos flexionados. Use uma almofada (ou bloco, cobertor) firme e confortável. Se os joelhos não tocam o chão naturalmente, use almofadas sob as coxas para que o peso e o tempo da postura não gere desconforto nos quadris e joelhos. Pense também em deixar os pés sobre um cobertor ou tapete de yoga para não sobrecarregar o dorso dos pés. A coluna deve permanecer ereta sem causar tensão nos ombros, pescoço, braços. A estabilidade da coluna depende da altura da pelve e o conforto para joelhos e pés. As mãos podem estar num mudra (gesto para manter a energia no corpo), ex: polegar e indicador unidos e os outros dedos naturalmente esticados. Pode manter a palma da mão sobre os joelhos ou coxas.

2. Rotação da consciência.

Visualizar e sentir cada parte do corpo separada e lentamente. Ex: começar pelo pé direito – sinta a sola do pé, calcanhar, dedo maior, segundo dedo, terceiro dedo,dedo menor, dorso do pé , tornozelos. Leve sua atenção para a sua perna direita, sinta a panturrilha, parte frontal, joelho direito, coxa. (volta e faz com o pé esquerdo em diante). Até chegar no topo da cabeça.

3. Estabelecer um sankalpa de estabilidade.

Se você se prepara para permanecer durante um determinado tempo em meditação, o corpo irá compreender mais facilmente estabelecendo um sankalpa (literalmente significa resolução). Uma frase simples como: “A partir de agora o meu corpo fica totalmente imóvel e estável, imóvel e estável (repita esse comando). Tão imóvel e estável que não consigo mais me mexer.” Podem acontecer vários momentos de movimentos inconscientes como coçar o nariz, mexer o pé, etc. Mas com a prática regular qualquer uma dessas necessidades (e podem surgir muitas) você irá perceber antes de agir. Então, se for muito necessário uma ação, é melhor torná-la consciente, ou seja, deu vontade de mexer o dedão do pé, então você diz mentalmente que irá se mexer. Com o tempo de prática você irá ter menos necessidades ou até não ceder a elas. E elas não duram o tempo todo e geralmente (às vezes a dormência permanece, mas é possível se dissociar dela), passa com a sua resolução de se manter estável e confortável.

4. Observar a respiração (Sentir o ar entrando e saindo pelas narinas)

É claro que a mente não ficará o tempo todo interessada na respiração, então, quando você perceber que ela já está fabricando pensamentos ou acompanhando os que surgem, vá para o próximo passo.

5. Percepção dos sentidos (ex: ouvir os sons externos, cheiros, contato do corpo com o seu assento)

Isso ajuda a mente a entrar em contato com o externo que, provavelmente, já foi detectada por ela. (ex: o latido do cachorro lá fora, o cheiro do café do vizinho). As informações externas irão continuar sempre. E naturalmente a mente vai acompanhando o que mais chama a atenção dela. O exercício aqui é apenas perceber e treinar não se envolver com o que você percebe. Evitar criar diálogos baseados nessa percepção. Evitar rotular o que você percebe. Evitar localizar a origem dos sons, cheiros e etc. Aqui também a mente irá se cansar. Então, volte ao item anterior.

6. Observar a respiração.

7. Percepção dos sentidos.

Passe por esses dois pontos (6 e 7) quatro a cinco vezes para exercitar a observação sem julgamento até que as informações oriundas dos sentidos já não tenham tanto impacto na mente (talvez você precisará de muitas sessões de prática até conseguir abstrair os sentidos, o importante é continuar e você irá perceber avanços consideráveis).

8. Observação da mente.

Com um bom treinamento em observar a respiração e ouvir os sons externos e outras informações trazidas pelos demais sentidos, observar a mente será o próximo passo.
Um conceito interessante para adicionar nesse processo é sobre kósas (corpos ou as camadas que formam o ser).

Os Kósas aparecem no segundo capítulo do Taittirya Upanishad, um texto da era védica que está inserido num dos Vedas chamado  Yajurveda.

Segundo o texto, o conhecimento mais profundo de si mesmo está inserido nessas camadas que são uma sobreposta à outra como se fosse uma cebola. Então, ter essa consciência dessas camadas nos faz entender que somos uma coisa só, porém, cada camada tem a sua função. Isso nos aproxima de nós mesmos como essência, desse conhecimento precioso que somos muito além dos pensamentos e emoções.

  1. camada física (ossos, músculos, pele, sistemas e etc)
  2. camada de energia ( a força vital, a réplica energética do corpo físico, sede dos cakras, vayus, nadis…)
  3. camada mental ( mente e emoções geradas por ela)
  4. camada de discernimento ( razão, ética, sabedoria)
  5. camada de bem aventurança ( felicidade, sede da alma)

Essa visão dos kosas é essencial para a conscientização do papel da mente no ser como um todo. Assim sabemos que é possível observar a mente e perceber como ela funciona. Os pensamentos surgem espontaneamente, oriundos do nosso inconsciente ou fabricados por nós mesmos. Esses pensamentos não têm existência física e, portanto podem se dissolver. Para dissolvê-los é necessário se dissociar deles. Perceber esse ‘eu observador’, essa consciência testemunha, essa camada de discernimento é fundamental nesse processo. É natural que os pensamentos se misturem com o observador. Em vários momentos desse processo essa consciência não estará presente e o pensamento começa a gerar outro pensamento que por sua vez gera mais um criando uma história na mente. O corpo pode estar na postura ideal, totalmente imóvel, mas a mente estará divagando na novela criada por ela mesma. Com a prática teremos oportunidade de perceber esse padrão e nos lembraremos de voltar a atenção aos pensamentos tentando não se envolver com eles. Patanjali, nos Yoga Sutras, fala dos Klesas (o que produz sofrimento) e dois deles são raga (apego) e dvesa (aversão). Importante colocar esses conceitos ao observar os pensamentos. Evitar se apegar a eles (e evitar criar a novela na mente) e também evitar aversão. Apego e aversão são dois lados da mesma moeda. Aversão é fugir do pensamento que nos incomoda e isso pode ter várias causas internas. O mais indicado é quando esse pensamento surgir, apenas olhar para ele evitando interagir. Com certeza ele passará e a emoção gerada por ele também. O mesmo acontece com os pensamentos que gostamos. Ainda sobre o tema Klesas, Patanjali fala da fonte de todos eles que é avidya, nossa ignorância sobre nós mesmos. E para tanto, ele diz que avidya, dentre outras coisas, é confundir o permanente com o impermanente (anitya). Nesse contexto, confundimos bastante os pensamentos que são impermanentes com nossa essência. Tomamos os pensamentos e as emoções como nós mesmos. A mente é parte do ser. As emoções e pensamentos são gerados por uma mente obscurecida, incapaz de perceber o que é real. A mente necessita ser purificada para que a essência possa brilhar. Esse é o tema do yoga. Os yogues já sabiam dessa habilidade de se dissociar de pensamentos e emoções e nos deixaram esse legado. Portanto, cabe a nós aprender a enxergar os padrões que a nossa mente tem e dissolvê-los com o exercício da dissociação, saber separar os pensamentos e emoções de nós mesmos. Discernir o papel de cada um dos kosas, reconhecer o que é necessário para que cada uma dessas camadas ‘funcione’ adequadamente. Reconhecer o papel importante do ego, o ‘eu’ fazedor que é necessário na nossa vida, mas muito confundido com o Ser, aquele que é a nossa verdadeira essência. E o ego poderá surgir muitas vezes nesse processo rotulando quando a experiência foi boa ou não, se sentindo um bom ‘observador’ ou hábil em se concentrar.  A prática de concentração e meditação em sim mesmas não pede nenhum adjetivo. É uma prática de purificação da mente e o que quer que aconteça é o que deve acontecer, faz parte do processo. Reconhecer essas intervenções do ego é importante para se aproximar do verdadeiro Ser, que não exige nada, apenas é.

9. Finalização

Volte a se envolver lentamente com os sons externos, com a percepção do corpo, as sensações e vá aos poucos trazendo movimentos suaves às extremidades, mesmo se você usou um despertador para administrar o seu tempo. Alongue-se e levante-se devagar tentando manter essa energia ao longo do seu dia. Boa prática!

Lembre-se que esse roteiro é bem básico para começar a aventura de olhar para você mesmo. O que vem em seguida à concentração é a meditação em si, que é uma experiência particular, é o momento em que você não necessita colocar nenhum esforço para se concentrar e entra num estado além da atenção plena num fluxo ininterrupto de contemplação profunda.

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