O yoga na vida

Patrícia Lima

Em um dos seus aforismos, Patanjali (autor do texto Yogas Sutras) cita uma maneira bem específica para tornar a consciência serena. Ele usa a expressão cittaprasadan, citta (consciência) e prasadan (felicidade, doçura ilimitada). E para obter esse resultado ele diz que é necessário cultivar algumas qualidades: amabilidade quando nos deparamos com pessoas ou situações onde há felicidade; compaixão diante da tristeza; alegria quando presenciamos qualquer virtude e a equanimidade ao nos depararmos com a não virtude. Muitos de nós já nos daríamos por satisfeitos com esses adjetivos. Ser amável e feliz quando o outro está vivenciando a felicidade, ainda que o outro seja o nosso maior desafio, desafeto ou até inimigo pode ser bem difícil se não conseguimos ainda saborear a felicidade com as nossas próprias vidas.

Mas uma das características da mente é que ela é flexível, portanto, treinável e somos capazes de perceber os seus padrões de funcionamento e com certo tempo de prática, dissolvê-los. A mente é como uma criança que devemos deixar brincar, ter as suas próprias descobertas, desafios e insights e ainda assim ensinar sobre limites, valores e estimular gradativamente. Geralmente aos nossos desafetos costumamos desejar que ‘sejam felizes’. E esse desejo muitas vezes esconde um desejo egoísta, já que o outro feliz “não irá nos incomodar”. Mas Patanjali fala de uma ‘consciência serena’, ‘doçura ilimitada’, e, portanto, de felicidade verdadeira e não passageira. Então, o trabalho a se fazer no nível mental aqui é algo muito profundo. É diminuir o nosso apreço a nós mesmos e começar a olhar o outro como um ser, uma alma pura. Esse desapego a nós mesmos não surge do dia para a noite, requer um trabalho de conscientização constante, de nos flagrarmos em momentos de autovalorização, autocentramento e apego em detrimento do outro. E isso não tem nada a ver com destruir egos, de ninguém, senão saímos de uma postura de arrogância externa para uma postura de autoflagelação onde ainda há desejo.

Precisamos de tempo. E tempo é algo que não temos muito. Nossa vida nos consome, vivemos um dilema entre viver a vida material e a vida espiritual. O próprio caminho nos ensina que os dois é uma coisa só. É no dia a dia que a vida espiritual acontece. Deveríamos aproveitar a oportunidade de acordar todos os dias e, conscientemente agradecer por isso. Parece um sentimentalismo pueril, mas ter consciência da impermanência de todas as coisas é sinal de maturidade e nos impulsiona para ter uma vida mais produtiva. Portanto, qualquer desafeto que ainda tenhamos pode ser uma oportunidade para treinar a mente a desenvolver amabilidade. Um bom treinamento é desejar todos os dias que esse ‘desafeto’ seja realmente mais feliz do que nós mesmos. Desafiante, mas muito poderoso. Então seremos capazes de cultivar amabilidade diante da felicidade de qualquer um.

Ser capaz de cultivar compaixão nos colocando no lugar do outro quando este vivencia algum sofrimento é desenvolver a empatia. É tirar o foco de nós mesmos, das nossas próprias dores ou alegrias. É aprender a diminuir o apreço e o apego a nós mesmos. Esse apreço ao ego é a fonte de todos os nossos sofrimentos. Não sabemos lidar com esse apreço, achamos natural e achamos que isso é autoestima. Cultivar alegria diante de atos virtuosos nossos ou do outro é importante, principalmente nesses tempos obscuros que estamos vivendo, onde o ganhar a qualquer custo, por exemplo, é considerado expertise e inteligência. E a sua contrapartida também é fundamental: evitar se abalar diante da não virtude. O cultivo da equanimidade para com os erros dos outros e os nossos gera a paciência amorosa. Talvez, num primeiro momento, aprendamos a ‘tolerar’ os erros alheios de uma maneira automática. O antítodo para essa atitude é olhar para os nossos próprios erros e vícios. Daí, essa paciência pode se tornar cada vez mais amorosa com o tempo de prática. O Yoga é assim, vai gerando alguns frutos ao longo do caminho.

Cultivar essas atitudes é uma tarefa muito importante. Para nós yogues, é a oportunidade de olhar não só para as virtudes, não virtudes, alegrias e tristezas do outro quanto para as nossas. Mas talvez ser amável, compassivo, alegre e equânime diante dessas condições ainda seja difícil para a maioria de nós. Podemos escolher uma dessas qualidades diante das situações citadas por Patanjali e trabalhar com ela, cultivando-a durante o tempo necessário para realmente desenvolver essa qualidade. Se ela surgir com um certo tempo de prática, devemos contemplar se é realmente uma qualidade profunda ou superficial. O ego, que em sânscrito é ahamkara e significa o “eu fazedor” geralmente toma os créditos de qualquer resultado das práticas em que a consciência se empenha (consciência= mente, ego e intelecto), pois ele adora desafios, inclusive ‘tornar-se’ espiritual e humilde. E como identificar a interferência do ego? Não é tão simples, é um processo de investigação constante. É o próprio caminho a ser trilhado.

A prática de yoga levada a sério nos coloca todos esses questionamentos o tempo todo, caminhando lado a lado com as ferramentas que Patanjali nos deixou, lembrando que o objetivo do yoga é autoconhecimento, é a iluminação. O fato é que Patanjali coloca esse sutra num contexto de possibilidades para pacificar a mente, torná-la favorável para que o yoga aconteça. A meu ver vai um pouco mais além: traz o yoga para a vida, não só para que o praticante se sinta bem e sim para que essa energia de paz possa favorecer as outras pessoas. Para que possamos beneficiar as outras pessoas energeticamente e a nós mesmos, precisamos trabalhar com aquilo que é real em nós. Saber como nos relacionamos com a confusão da nossa mente leva tempo, autoinvestigação, empenho, já que a mente e o ego estão acostumados num padrão que lhes é apropriado e aparentemente confortável. O yoga na vida é encarar nós mesmos sem subterfúgios, sem autopiedade, com amor e com a motivação de despertar a sabedoria interna. Saber que a cada dia temos mais uma oportunidade de nos aproximarmos de nós mesmos.

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